Um município pode ter dívida baixa e poupança corrente positiva — e ainda assim sofrer uma crise de caixa que paralisa o pagamento de fornecedores e servidores. É justamente para capturar esse risco que a CAPAG inclui o indicador de liquidez: ele mede se o dinheiro disponível hoje consegue fazer frente aos compromissos imediatos.
A fórmula do índice de liquidez
O indicador é calculado como:
IL = Obrigações Financeiras ÷ Disponibilidade de Caixa Bruta (fontes não vinculadas)
Quanto menor o resultado — ou seja, quanto mais caixa livre em relação às obrigações —, melhor a nota parcial. Um IL acima de 1,0 indica que as obrigações superam o caixa disponível, sinal de iliquidez.
O que são "fontes não vinculadas"?
Aqui está o detalhe que muitos gestores negligenciam. O Tesouro Nacional considera apenas as disponibilidades de fontes livres — os recursos que o município pode usar sem restrição legal ou contratual. Saldos de convênios federais, royalties carimbados, fundos com destinação específica (FUNDEB, saúde, assistência social) não entram no denominador. Na prática, um município com R$ 50 milhões em caixa pode ter apenas R$ 8 milhões em fontes não vinculadas — e é sobre esse valor que a liquidez é medida.
Causas comuns de liquidez baixa
- Resto a pagar excessivo: despesas empenhadas e não pagas acumuladas em anos anteriores criam obrigações que pesam no numerador do índice.
- Antecipação de receita (ARO): operações de crédito por antecipação de receita orçamentária aumentam as obrigações financeiras de curto prazo sem ampliar o caixa livre de forma duradoura.
- Precatórios e ações trabalhistas: quando reconhecidos contabilmente como obrigações correntes, entram no numerador e pressionam o indicador.
- Vinculação excessiva do caixa: municípios que não gerenciam ativamente o perfil de suas disponibilidades frequentemente têm muito dinheiro "preso" em fontes específicas e pouco caixa livre.
O erro mais comum é o gestor olhar o extrato bancário consolidado e concluir que o caixa está bom. O que importa para a CAPAG é o caixa livre — e esse número costuma ser bem menor do que aparece na tela do banco.
Como melhorar o índice de liquidez
Três linhas de ação costumam ser as mais eficazes:
- Reduzir o resto a pagar: controle rígido de empenho — não empenhar sem previsão de pagamento no exercício — evita o acúmulo de obrigações que corroem a liquidez nos anos seguintes.
- Antecipar o pagamento de obrigações financeiras de curto prazo quando há disponibilidade de caixa livre, reduzindo o numerador antes da data de apuração da CAPAG.
- Ampliar as disponibilidades livres por meio de uma gestão de tesouraria mais ativa, priorizando o uso de fontes vinculadas quando a despesa for elegível e preservando o caixa livre para cobrir as obrigações que o Tesouro Nacional vai aferir.
O indicador de liquidez é o mais volátil dos três — pode mudar significativamente de um trimestre para outro, o que o torna o mais passível de melhoria rápida com intervenção cirúrgica da tesouraria municipal.
Acompanhe os dados do seu município antes que virem problema.
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